PORQUE É QUE EU AMO O APÓSTOLO PAULO

Artigo de John Piper

Mais claramente do que qualquer outro escritor na Bíblia, o apóstolo Paulo revelou-me a verdade de que Deus é mais glorificado em mim quando eu estou mais satisfeito nele. Foi emocionante descobrir que glorificar Deus e satisfazer a minha alma não são opostos.

Mas há um segundo capítulo da história que torna a minha gratidão a Paulo ainda mais doce. Devo-lhe, mais do que a qualquer outro, outra descoberta crucial, daquelas que mudam a vida. A primeira descoberta foi como resolver a tensão entre o desejo de glorificar Deus e o desejo de ser feliz. A segunda descoberta foi como resolver a tensão entre o desejo de ser feliz em Deus e o desejo de amar outras pessoas.

Outra tensão por resolver

É possível amar pessoas se, no preciso acto de lhes fazer bem, estiveres a procurar a plenitude da tua alegria? Afinal, foi Paulo que disse “O amor (…) não busca os seus interesses” (2 Coríntios 13:4-5). E noutra passagem: “ninguém busque o proveito próprio, antes cada um o que é de outrem” (1 Coríntios 10:24). E outra vez: “mas nós (…) devemos suportar as fraquezas dos fracos, e não agradar a nós mesmos” (Romanos 15:1). Portanto, como é que podes afirmar que amas as pessoas, se, no preciso acto de as amar, estiveres a procurar a tua própria alegria?

Esta pergunta pareceu-me tão imperativa quanta a primeira acerca de como glorificar Deus ao procurar a minha própria alegria. Jesus disse que o “primeiro e grande mandamento” é amar Deus (Mateus 22:38). Mas também disse que o mandamento de amar o nosso próximo é “semelhante a este” (Mateus 22:39). Portanto, a pergunta de como amar pessoas com um coração que não consegue parar de querer ser feliz – ou seja, um coração que arrisca não deixar de ser feliz, para que Deus não seja desonrado pelo meu falhanço de ser feliz nele – essa pergunta era tão importante quanto qualquer outra.

Por isso, como é que a procura de alegria em Deus se relaciona com o amor pelos outros? Paulo mostrou-me que a alegria genuína em Deus, criada pelo Espírito, não dificulta o amor pelas pessoas, mas de facto faz com que o amor pelos outros abunde. Caracteriza-se por um impulso em se expandir. A alegria em Deus cresce à medida que se expande na vida de outros para que possam partilhá-la.

Paulo indica o caminho

Paulo dá-nos a ilustração mais explícita disto no Novo Testamento. Encontra-se em 2 Coríntios 8:1–2, onde Paulo procura motivar o amor dos Coríntios ao dar-lhes o exemplo dos Cristãos Macedónios e da forma maravilhosa como mostraram amor.

“Também, irmãos, vos fazemos conhecer a graça de Deus dada às igrejas da Macedónia; Como em muita prova de tribulação houve abundância do seu gozo, e como a sua profunda pobreza abundou em riquezas da sua generosidade (…) Não digo isto como quem manda, mas para provar, pela diligência dos outros, a sinceridade do vosso amor” (2 Coríntios 8: 1-2,8).

Observem cuidadosamente que a “abundância do seu gozo” nos corações dos Macedónios não foi consequência de circunstâncias confortáveis. Eles estavam em “profunda pobreza” e “em muita prova de tribulação”. A “abundância do seu gozo” deveu-se à “graça de Deus” que lhes foi “dada” (2 Coríntios 8:1). Os seus pecados foram perdoados. A ira de Deus foi substituída pelo sorriso divino do favor eterno. A culpa desapareceu. O inferno foi fechado. O céu foi aberto. O Espírito habitou neles. A esperança explodiu nos seus corações. Tudo isto por causa de Cristo, quando não mereciam nada disto, a graça de Deus foi-lhes dada (2 Coríntios 8:1).

Esta “abundância de gozo” tornou-se uma fonte de amor pelas pessoas. Não podia ser mais claro: “houve abundância do seu gozo, e (…) abundou em riquezas da sua generosidade” (2 Coríntios 8:2). Isto era amor. Ele indica-o no verso 8, ”a sinceridade do vosso amor.” Portanto, a definição de Paulo de um amor genuíno, que exalta Deus, poderia ser esta: amor é a abundância da alegria em Deus que atende as necessidades dos outros.

Alegria pelo bem do amor

Isto é mais profundo do que parece. Paulo não está a dizer: “a verdadeira alegria precisa de amor pelas pessoas.” Isso é verdade. Uma pessoa que não ama não será feliz a longo prazo. Mas isto é uma simplificação excessiva que ignora o ponto mais importante. O ponto não é que, para que tenhamos o prazer mais verdadeiro, precisamos de amar as pessoas. Antes, o ponto é que, quando a alegria em Deus transborda para as vidas de outros na forma de generosidade, esse transbordar de alegria é amor. Dizendo de outra forma: não procuramos amar apenas para sermos felizes, mas procuramos ser felizes em Deus de forma a amar. Foi a “abundância de gozo” deles que transbordou em amor (II Coríntios 8:2)

Este pensamento pareceu-me tão radical que quis comprová-lo testando-o no resto das Escrituras. É verdade que a minha alegria está assim tão intimamente ligada ao meu amor pelas pessoas? O que encontrei foi uma corrente de mandamentos bíblicos:

– ama a beneficência, não a pratiques somente (Miquéias 6:8);

– pratica actos de misericórdia com alegria (Romanos 12:8);

– sofre alegremente a perda no serviço a presos (Hebreus 10:34);

– dá com alegria (II Coríntios 9:7);

– faz da tua alegria a alegria de outros (II Coríntios 2:3);

– apascenta o rebanho de Deus voluntariamente e com ânimo (I Pedro 5:2);

– vela pelas almas com alegria (Hebreus 13:17).

Para mim, isto foi maravilhoso. Não estamos a lidar com algo marginal ou engenhoso. Isto, na verdade, penetra na alma e transforma radicalmente a vida: a busca pelo amor autêntico por pessoas inclui a busca da alegria, porque a alegria em Deus é um ingrediente essencial do amor autêntico. Isto é muito diferente de dizer “vamos amar porque isso nos fará felizes”. Estamos a dizer “vamos procurar ser tão cheios de alegria em Deus para que esta transborde em amor sacrificial por outras pessoas.”

Amor que sobrevive a toda a tristeza

A palavra sacrificial pode parecer paradoxal. Se estamos a abundar de alegria para com outros e se a nossa alegria está a expandir-se, aproximando outros, como podemos falar de sacrifício? A razão é que o caminho de maior alegria nesta vida é muitas das vezes o caminho de maior sofrimento. Na era por vir, depois do regresso de Jesus, toda a dor deixará de existir. Mas ainda não. Nesta vida, o amor muitas vezes implica sofrimento. Poderá, na realidade, implicar dar as nossas vidas. Mas Paulo define-nos o ritmo quando diz: “Regozijo-me agora no que padeço por vós” (Colossenses 1:24). “Superabundo de gozo em todas as nossas tribulações” (2 Coríntios 7:4). “Também nos gloriamos nas tribulações” (Romanos 5:3).

Há razões para que este estranho e maravilhoso tipo de alegria sobreviva e até cresça na aflicção. Uma das razões foi-nos ensinada por Jesus: “Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber” (Atos 20:35). O transbordar para outros enriquece-nos. Outra razão é a de que, ainda que alguns de vós sejam mortos, no fim “não perecerá um único cabelo da vossa cabeça” (Lucas 21:16, 18). Jesus disse “todo aquele que vive, e crê em mim, nunca morrerá” (João 11:26). O mundo pensa que morremos, mas Jesus leva-nos tão rapidamente para o seu cuidado que não existe qualquer interrupção na nossa vida. Uma terceira razão é a promessa: “é grande o vosso galardão nos céus” (Mateus 5:12). Finalmente, o maior acto de amor alguma vez praticado foi sustentado pela alegria em Deus: “Olhando para Jesus (…) o qual pelo gozo que lhe estava proposto suportou a cruz.” (Hebreus 12:2)

Por isso é que, durante os meus 33 anos como pastor, o texto base a que voltámos vez após vez foi 2 Coríntios 6:10: “Como contristados, mas sempre alegres” (2 Coríntios 6:10). Sempre. Alegrando-nos ao mesmo tempo que nos contristamos. Não somente sequencialmente, mas simultaneamente. Amar outros não tem de esperar até que a tristeza passe, porque a alegria não espera.

E durante estes 33 anos, o cântico que cantámos vez após vez foi “Sou feliz, com Jesus”:

“Se paz a mais doce me deres gozar

Se dor a mais forte sofrer

Oh! Seja o que for, Tu me fazes saber

Que feliz com Jesus sempre sou!”

O amor genuíno faz muitos sacrifícios pelos que ama. Há muita dor e tristeza. Mas em Cristo não há um sacrifício derradeiro. Certamente, Jesus chama-nos à auto-negação. Mas este argumento pela auto-negação é o de que “qualquer que perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, esse a salvará” (Marcos 8:35). Do outro lado da auto-negação – mesmo a morte – há a alegria eterna na presença de Deus.

O amor não é relutante

Nunca conheci pessoas que fiquem ofendidas porque os sacrifícios que fazemos pelo seu bem nos trazem alegria. De facto,  o “amor” meramente por dever – ou pior, o amor relutante – não faz com que as pessoas se sintam amadas. Fá-las sentir como um fardo. Tenho a certeza, por isso, que Paulo concordaria com o escritor de Hebreus quando ele diz aos seus ouvintes que deixem os líderes cuidar deles “com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil” (Hebreus 13:17). Servir por obrigação não traz nenhuma vantagem às pessoas. Ou, colocando-o positivamente, encontrar alegria no cuidado das pessoas é vantajosa para estas. É amor.

Seguramente, isto é o que Paulo diz aos Coríntios: “Confiando em vós todos, que a minha alegria é a de todos vós” (2 Coríntios 2:3). Sim! Se vierem ter comigo e quiserem experimentar alegria – isto é, se quiserem amar-me – venham com alegria. E a melhor alegria de todas é a alegria em Deus. Dêem-me essa alegria. Dêem-me essa abundância. Sentir-me-ei amado. E vocês sentir-se-ão felizes.

É, por isso, que Paulo conseguiu de novo. Não só me mostrou como a busca pela glória de Deus e a minha felicidade andam de braços dados, mas também me mostrou que aquele desejo inextinguível pela felicidade e amar pessoas andam de mãos dadas. O amor genuíno, sacrificial, que exalta Cristo, pelo seu Espírito, é o transbordar da alegria em Deus que se expande quando responde às necessidades dos outros. Como posso não amar o homem que, a seguir ao Senhor Jesus, me mostrou, mais claramente do que qualquer outro, a beleza dessa forma de vida?


Por: John Piper. ©️ Desiring God Foundation. Traduzido com permissão. Fonte: O Amor é a Abundância da Alegria em Deus. ©️ Rede Reformada Todos os direitos reservados. Tradução: Tiago Falcoeiras.

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